Água-viva “imortal” inspira tratamentos contra doenças do envelhecimento

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Água-viva “imortal” inspira tratamentos contra doenças do envelhecimento

Pequeno animal marinho capaz de voltar ao estágio jovem intriga cientistas, que buscam entender como ele faz isso e se algo parecido poderia ajudar a regenerar tecidos humanos.

Existe um animal marinho minúsculo e transparente, a Turritopsis dohrnii, que desafia o que sabemos sobre o ciclo da vida. Quando sofre estresse intenso, como falta de alimento, ferimentos, variações extremas de salinidade ou temperatura, ela não morre: encolhe, afunda e se converte numa massa de células. Em até três dias, essa massa dá origem a um pólipo, fase inicial da água-viva, que forma uma colônia capaz de gerar centenas de novas águas-vivas adultas (medusas). Em princípio, cada uma delas pode repetir o processo, o que rendeu à espécie o apelido de “água-viva imortal”.

Uma descoberta por acaso

O fenômeno foi notado em 1992, quando um pesquisador italiano esqueceu os animais sem alimentação durante um fim de semana. Em vez de encontrá-los mortos, viu novos pólipos no recipiente. A partir daí, o biólogo Stefano Piraino, da Universidade de Salento (Itália), descobriu que alguns tecidos da medusa passam por uma “transdiferenciação”: células adultas voltam a um estado semelhante ao de células-tronco e se transformam em outros tipos celulares, conforme a necessidade. Até onde se sabe, nenhum outro animal faz algo parecido. Lagartos, vermes e anfíbios regeneram partes do corpo, mas não revertem o organismo adulto a uma fase jovem.

'Pólipos' de águas-vivas imortais são um estágio de vida inicial que produz bebês águas-vivas — Foto: Davide Maggioni/Laboratório de Miglietta na Texas A&M Galveston

'Pólipos' de águas-vivas imortais são um estágio de vida inicial que produz bebês águas-vivas

O que os genes revelam

A bióloga marinha Maria Miglietta, da Universidade A&M do Texas, em Galveston (EUA), e outros grupos tentam identificar os mecanismos genéticos por trás do processo. Um estudo de 2022, liderado por Victor Quesada (Universidade de Oviedo, Espanha) e Maria Pascual-Torner, comparou a espécie a um parente que não rejuvenesce e encontrou mais cópias de genes ligados ao reparo do DNA e à manutenção dos telômeros, estruturas que protegem as pontas do material genético e costumam encurtar com a idade.

Pesquisas de Miglietta em 2019 e 2021 mostraram que, na fase em que as células revertem seu destino, também há maior atividade desses genes, além de genes ainda sem função conhecida. Um estudo preliminar apontou ainda alguma sobreposição com genes associados à longevidade em humanos. Miglietta colabora agora com o oncologista pediátrico Michael Koldobskiy, da Universidade Johns Hopkins (EUA), para testar se processos semelhantes poderiam ser induzidos em células humanas.

Imortal, porém frágil

A água-viva imortal também não é invencível. Parte dos animais em laboratório não consegue rejuvenescer, e pode haver um limite de ciclos antes que morram de velhice. Manter a espécie em cativeiro por muito tempo é complicado, e, na natureza, a escassez de plâncton, predadores e algas que sufocam as colônias ameaçam sua sobrevivência. Ainda assim, ela se espalhou por oceanos do Mediterrâneo ao Caribe e ao Japão.

Para Pascual-Torner, o animal é um lembrete de que, mesmo com capacidade de rejuvenescer, segue extremamente vulnerável, e de que vida e morte são partes inseparáveis da mesma realidade.

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